Faces

O rei da Globo

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É impossível falar de novelas brasileiras sem passar pelos cabelos grisalhos e pelo sorriso de galã de António Fagundes, que corre os palcos do Brasil e de Portugal com a peça de teatro “Tribos”. Ao fim de 48 anos de carreira, o actor já contracena com o filho e fica mais feliz a fazer papéis que ajudem a pensar.


Agora está mais dedicado ao teatro do que à televisão. Tem tempo para tudo?

É a minha profissão, tenho de arranjar tempo. Sempre fiz mais teatro do que televisão, mas a televisão faz com que fiquemos com mais fama. Às vezes também faço cinema ao mesmo tempo. É isso que faço há muitos anos e com muito prazer. Sem esse prazer é que não dá para fazer nada.


Do que trata esta peça “Tribos”?

É uma família disfuncional, em que o pai e a mãe têm três filhos. Um deles é esquizofrénico, a outra é uma cantora de ópera fracassada – ela canta em pubs – e o terceiro é um deficiente auditivo. E a família, particularmente o pai, que é muito preconceituoso, resolveu oralizar o rapaz e ensinar a leitura labial. Ele é contra a língua gestual. O grande conflito da peça começa quando o rapaz conhece uma menina que está a ficar surda e lhe começa a ensinar a língua gestual. Ele leva essa menina a jantar lá em casa e é uma enorme confusão. É uma peça de comédia perversa. Tem situações muito engraçadas de que você ri e ao mesmo tempo pensa: estou mesmo a rir de uma coisa destas?


É uma questão de comunicação?

A peça usa a deficiência auditiva como uma espécie de metáfora para falar da surdez do mundo, para falar da incomunicabilidade, do preconceito, da intolerância. Fica claro ao longo do texto que o único que ainda tem capacidade de ouvir é exactamente o deficiente auditivo.


Gosta de escolher papéis que signifiquem alguma coisa?

A gente costuma brincar que uma boa peça de teatro é aquela que faz você pensar cinco minutos até ao estacionamento. Esta aqui faz pensar um pouco mais e isso já vale a pena.


É possível fazer isso também em televisão?

É possível. Acho que, inclusive, tive muita sorte com as minhas personagens de TV e com as minhas novelas. Todas têm alguma coisa para além do entretenimento, o que é muito importante e é a base da televisão. Mas acho que se, além do entretenimento, a novela ainda fizer pensar dois minutos durante a sobremesa, já é uma coisa boa. E temos conseguido fazer isso com algumas coisas da teledramaturgia brasileira. Esta novela que fiz há pouco tempo, “Amor à Vida”, trata de assuntos muito polémicos, como a homofobia. É possível levar um pouco de vida inteligente para a televisão.




A sua personagem na novela, o Dr. César, tinha precisamente esse contraste: dizia que não tinha preconceitos, mas tinha.

Sim, é fácil dizer isso, mas se for com o meu filho já não quero. Por coincidência, esta peça também fala desse tipo de coisas. Eu podia dizer que fiz uma temporada a analisar o preconceito. A novela foi muito feliz ao colocar a homofobia dentro da família, que é uma coisa que normalmente é esquecida. Há quem ache que a homofobia só acontece na rua, com estranhos. Mas o preconceito maior começa dentro de casa. Talvez o homossexual e o deficiente, ambos tenham o problema mais forte dentro da família do que no resto da sociedade, onde podem descobrir as suas identidades. Mas se a família não permitir, o problema é logo maior.


Por falar em família, como é estar nesta peça a actuar com o seu filho?

Esta já é a terceira vez que trabalhamos juntos. Fizemos uma peça antes e recentemente uma novela muito revolucionária na linguagem. A peça foi um enorme sucesso, até achamos que saiu do palco antes do tempo.


Foi o pai que incentivou o filho?

Não, ele já quer fazer teatro desde os 12 anos. Eu tenho outros três filhos e ele foi o único que quis. O pai nunca incentivou nada. O pai e a mãe só deram condições para eles escolherem livremente o que quisessem.


É bom contracenar com ele?

Ele é um profissional extraordinário, por isso é bom. Podia ser só meu filho. Mas o que eu fiquei feliz foi de reconhecer no Bruno um profissional tão apaixonado pelo teatro como eu sou, e disciplinado e estudioso. É um prazer.


É uma profissão de disciplina?

É, as pessoas acham que é só boémia e glamour. Mas não há nada com menos glamour do que a nossa profissão. A gente trabalha no pó o tempo todo. E tem de ter uma grande disciplina, os horários têm de ser muito rígidos, ou então não se consegue. É preciso estudar e pesquisar o tempo todo. Exige uma abertura para o mundo que talvez as outras profissões não exijam tanto. Você pode se concentrar no seu pequeno mundo e dá tudo certo. No teatro, na arte em geral, é ao contrário. Quanto mais aberto você for, mais pronto você estará para o que vier. É uma profissão que exige uma renovação constante e essa renovação passa pela disciplina.


E ainda há a exposição.

Aí vêm as consequências. Eu estou com 48 anos de carreira e sei como é.


Estava a dizer que tem tido sorte. Mas dá para ser só sorte?

Há uma frase de Shakespeare de que eu gosto muito: “Estar pronto é tudo”. Mesmo que se tenha sorte, se não estiver pronto não adianta nada. Digamos que o talento, a dedicação e o estudo, têm de estar ali. Mas você tem também de ter sorte, ou então não dá para usar nada disso. É uma mistura boa de sorte, talento e obstinação.




Ao fim de 48 anos, ainda não se cansou?

Não. Costumo dizer que quem gosta do que faz não trabalha nunca. É uma boa perspectiva de vida.


Citou Shakespeare. Já fez Shakespeare?

Fiz só o “Macbeth”. Gosto muito de o ler, adoro, mas não sei se é um autor bom para encenar a toda a hora. O público brasileiro não tem essa formação, não tem essa paciência. Embora ele se tenha tornado um clássico por ser muito popular, o público não tem ainda essa vontade. Como eu gosto de imaginar a minha profissão como comunicação, penso muito nisso. Uma obra de arte que não comunica é uma obra de arte que fica sozinha.


Tem comunicado com muita gente. Sente essa responsabilidade?

Sinto. É por isso que tenho muito cuidado com as coisas que vou fazer. Assim como tenho um monte de gente a prestar atenção ao que eu estou a fazer, eu estou a prestar atenção a esse monte de gente. É uma troca que tem de ser respeitada.


Está aqui a fazer uma comédia. Sente-se confortável com o humor, apesar de o associarem mais a papéis dramáticos?

O humor sempre foi desprezado. Talvez a culpa disso seja do Aristóteles, porque perderam o texto dele sobre a comédia. Passou a parecer um género menor, mas não é verdade. Fazer uma pessoa rir é das coisas mais difíceis. É preciso ter um conhecimento maior para fazer rir do que para fazer chorar. E a técnica tem de ser impecável. Basta errar um segundo para a piada se perder. Quando você faz uma plateia de 1000 pessoas dar uma gargalhada, é um mérito fantástico.


A frase de Fernando Pessoa na sua t-shirt é por algum motivo especial?

Primeiro porque adoro ler. E a frase diz: “Ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro para ler e não o fazer”. É um pouco de preguiça, embora eu adore ler. Comprei-a em Lisboa. Mas há muita gente a estudar Fernando Pessoa no Brasil, assim como talvez haja mais gente a perceber de Machado de Assis em Portugal. Achamos sempre que o jardim do outro é mais verde. É uma forma de estarmos sempre descontentes.